Suicídio é 'epidemia silenciosa' que mata uma pessoa a cada 45 minutos no Brasil

Aos onze anos César* senta com os pais. Estudioso, ele sonha em ser médico. Pede para ser transferido para uma escola em que ser muito dedicado nas aulas não seja motivo de bullying, como acontece no seu colégio. Quer mais desafios, um ambiente que o estimule. Gostaria de frequentar uma universidade internacional, como a americana Harvard. O idioma não seria um impeditivo, pois César nasceu nos Estados Unidos e é fluente em inglês. Juntos, os três analisaram as opções e escolheram uma das mais tradicionais instituições de ensino da cidade de São Paulo, conhecida pelo rigor das avaliações, alto índice de aprovação dos alunos em bons vestibulares e mensalidades caríssimas. Com o passar dos anos, César pareceu se adaptar, até entrou para um grupo de trabalho voluntário no Hospital das Clínicas. Introspectivo, passava o tempo livre entretendo crianças internadas para tratamento de câncer. O pai não sabe precisar quando, mas em algum momento da trajetória promissora, o comportamento de César começou a mudar. Por alguma razão, o menino quieto e aplicado se tornou um rapaz ansioso, às vezes agressivo, e relaxado na escola. Levaram-no para um tratamento com psicoterapeuta. A mãe chegou a propor uma mudança, mas o menino resistiu a trocar de escola ou a fazer uma pausa para lidar com o emocional abalado. Achava que atrapalharia os planos de ser médico. No dia 8 de maio, a angústia ficou maior que o sonho. Aos 16 anos, César se matou enquanto a mãe e o irmão mais novo dormiam nos quartos ao lado. Na carta em que deixou, admitiu que a pressão na vida escolar era grande demais. Para o irmão mais novo, legou seus pertences. Para os pais, a confissão de que já havia tentado dar fim à sua vida outras vezes. Nas semanas seguintes, outros três adolescentes tiraram a própria vida e os casos vieram à público. Todos estudantes de escolas de elite, com acesso a oportunidades. Em um cenário em que tudo parecia tão bem, o que teria levado esses garotos a abreviarem sua existência?

Epidemia silenciosa
A cada 45 minutos uma pessoa se mata no Brasil. Os idosos são as principais vítimas, mas a epidemia silenciosa acomete os jovens. Nesse grupo, os índices crescem em níveis preocupantes – de 1980 a 2014, a alta foi de quase 30%. No primeiro boletim epidemiológico sobre o assunto, divulgado em 2017 pelo Ministério da Saúde, o suicídio consta como a quarta maior causa de morte entre brasileiros de 15 a 29 anos. Nesta sexta (8), o chef, escritor e apresentador Anthony Bourdain, 61 anos, foi encontrado morto em um quarto de hotel na França. Na terça-feira (5), a estilista Kate Spade, 55 anos, se enforcou em seu apartamento em Nova York. A medicina descreve o ato como uma série de condições e manifestações comportamentais ligadas à autodestruição. Geralmente, vai além de um impulso para colocar fim em um sofrimento insuportável. Antes de tirar a própria vida, muitos suicidas passam por diversas fases de ideação da morte. Fazem planos, cometem autoagressões, passam para as tentativas até chegar ao êxito. Por se tratar de um processo, a Organização Mundial da Saúde estima que 90% dos casos poderia ter outro desfecho. “É possível evitar. Apenas um percentual pequeno de casos não tem relação com patologias mentais, identificadas ou não, que poderiam ser tratadas”, explica o psiquiatra e pesquisador Bruno Mendonça Coelho, especializado em infância e adolescência, que no fim de 2017 concluiu estudo dos traumas na infância e sua relação com transtornos mentais e suicídios. As doenças mentais, principalmente os transtornos de humor, são o maior fator de risco para o suicídio – estão presentes em 87,3% dos casos. “Mas ninguém se mata por uma única razão. O evento que desencadeou a reação deve ser analisado junto ao histórico do indivíduo, sua personalidade e fatores associados”, completa Bruno. Em seu estudo, ele se aprofundou em um aspecto que só há pouco ganhou atenção no Brasil, a exposição às adversidades precoces, experiências traumáticas ou ausência de circunstâncias positivas durante a infância que podem resultar em transtornos ou potencializar vulnerabilidades genéticas já existentes. Isso pode incluir abuso emocional, sexual ou agressão física, assim como os efeitos decorrentes de um ambiente familiar disfuncional, tais quais morte de um dos pais, encarceramento, histórias de alcoolismo ou abuso de drogas ou ainda familiares com depressão crônica, psicose ou comportamento suicida. Bruno explica que esses estresses produzem consequências a longo prazo, marcando profundamente o crescimento e o desenvolvimento da criança e deixando-o mais propensa a certos comportamentos. Um diagnóstico clínico correto de transtornos mentais existentes e de outros fatores de risco se faz fundamental para orientar a prevenção em casos de suicídio. (Revista Claudia)

Procurar Notícias

©Site fundado em 15/01/2013 - Por: *Valter Egí - Todos os direitos reservados à Feira News*